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Amamentação: se é natural, por que é tão difícil?

13 de junho de 2018

Hoje quero falar de um assunto que ronda diversas famílias e desconstrói um paradigma que nos foi implantado de que a amamentação é instintiva e natural. Sinto muito em lhes dizer isso, mas não é!

Fui mãe aos 28 anos, uma gravidez de gêmeos que passou extremamente rápido e que não tive oportunidade de estar presente em cursos específicos de troca de experiências com outras mulheres. Trabalho com mães e bebês em consultoria de aleitamento materno há mais de 10 anos, porém, no meu momento, eu era apenas a mulher grávida; a profissional deixou de existir.

Não pense que foi fácil, pelo contrário, foi o maior desafio da minha vida e eu estava SOZINHA. Acredito que a grande maioria das mulheres sentem-se exatamente assim: com a sensação de solidão, medo e insegurança, embora não digam e às vezes não deixe transparecer. Eu tinha DOIS bebês para amamentar e todos achavam que eu não precisava de ajuda, que era uma profissional que ajudava tantas mães e que jamais não conseguiria amamentar os meus filhos.

A cobrança pela amamentação dos sonhos é muito grande, a sociedade não sabe o quanto precisamos caminhar para que tudo flua de maneira correta. Após o parto uma enchente de emoções toma conta do nosso corpo e aquela mulher, que antes habitava nele, renasce em um corpo que não lhe pertence mais pois, ela o divide com seu bebê integralmente.

Para as mães que não conseguiram amamentar seus filhos, a dor de não ter tido apoio e ter desmamado o bebê antes do tempo é algo que vai na alma, bem daquele lado mais dolorido sabe?!

Como se não bastasse, ainda são obrigadas a ouvir comentários do tipo: “Nossa, esse bebê está tão magrinho, será que seu leite sustenta?” “Nossa, esse bebê só fica mamando o tempo todo, como você consegue? Será que seu leite não é fraco?” E mais um monte de perguntas sem a mínima compaixão e empatia.

Minhas dificuldades foram em relação ao contato precoce com eles, pois, um foi para a UTI e a outra para a Unidade de Prematuros. Isso era muito cansativo e ameaçador. Todos os dias o estresse de ordenhar e contar as gotas que iam para cada um deles estava presente. Eu não mandava uma gota a mais ou a menos para cada um, sempre dividia. Após todos os perrengues e a alta hospitalar, a amamentação durou 5 meses exclusivamente.

Relaciono as dificuldades à falta de informação, afinal, quando estamos nessa fase de vulnerabilidade não sabemos até que ponto tal situação é natural ou não. As dúvidas são muitas e na grande maioria das vezes são monstros que nos arruínam em pensamentos não resolutivos, como se nos trancassem em celas e nos deixassem sozinhos para resolver o problema.

As mulheres precisam de informação e nós profissionais de saúde precisamos estar preparados para recebê-las munidos de muita ciência, atualizações, empatia e paciência. Infelizmente, muitos médicos, enfermeiros, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e até mesmo psicólogos não sabem NADA sobre amamentação e são talvez a única pessoa que ela vai fazer contato nesse período.

Diante disso, é muito comum que vejamos mães que passaram pela experiência e hoje fazem o papel principal de informar as novas mamães em grupos de apoio ou mesmo nos consultórios de pediatras  e clínicas de vacinação, pois é ali que se concentram o maior número de mulheres que estão enfrentando esses mesmos problemas.

Trago verdades: SÓ A INFORMAÇÃO SALVA!!!

A amamentação é difícil porque não vem sozinha, junto com ela vem uma enxurrada de hormônios, de sentimentos negativos, de medo e de sensações de que nada vai dar certo e às vezes não dá mesmo! Amamentar dói e não amamentar dói mais ainda, por isso a informação ainda durante a gestação pode lhe mostrar um caminho bem diferente após o nascimento do seu bebê.

O que eu mais indico: vá em busca de informação (de qualidade é claro!) durante a sua gestação ou incentive uma grávida que você conhece ou vai conhecer. Não temos tempo para buscar informação depois do caos instalado. Às vezes, até encontramos pessoas que podem sim nos ajudar, mas, enquanto isso o tempo vai passando, as dores e dificuldades vão aumentando e pode ser tarde demais, o bebê já desmamou.

Procure ajuda, procure uma consultora em amamentação, não deixe esse momento passar sem que você tenha tentado todas as formas de ajuda. Por mais doloroso que seja, a pior dor é de não ter tentado. Nós estudamos muito para apoiar tanto as mães que desejam amamentar, como respeitamos e acolhemos aquelas que não tem esse desejo, e não se espante ao ler isso, muitas mulheres não querem e isso é totalmente compreensível.

Tenham em mente que tudo isso vai passar, as madrugadas não serão para sempre curtas, a privação de sono (que pra mim é muito ruim) vai dar espaço para noites tranquilas, eles vão crescer e independente de terem sido amamentados ou não, precisamos manter o vínculo afetivo e como uma chama sempre acesa e pronta a os amparar. Na minha experiência como mãe, amamentar dois seres ao mesmo tempo foi marcante e surreal. Eu pensaria duzentas vezes para viver novamente tal momento. É muita dedicação, muito esforço e muita bagunça de sentimentos. Não me arrependo, mas, não vivi com qualidade essa experiência como deveria, como tinha condições de ter vivido, tudo isso para não dar brecha para a introdução da mamadeira; tudo isso para tentar dar conta de tudo… sempre!

Faça a sua experiência dar certo, desde que ela seja feita com prazer e troca entre ambas as partes. Não dá para ter um relacionamento em que apenas um esteja satisfeito, isso não é o ideal. A relação depende do quanto estamos satisfeitos e plenos dentro dela, caso contrário, é escravidão. A decisão, na maioria das vezes, depende de nós!

Sinta-se acolhida por nós mães que vivemos e falamos da maternidade real, como ela acontece no dia a dia e não como um mundo intocável e perfeito. Conte conosco para lhe ajudar nessa fase tão delicada e especial.

 

Uyara Januzzi, 34 anos, mãe da Júlia e do Miguel, enfermeira obstetra que ama os filhos mais que tudo nesse mundo.

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