AMAMENTAÇĀO BEBÊ MATERNIDADE

Desmame aos 9 meses e meio

3 de agosto de 2018

Gostaria de ter que escrever sobre este tema somente no futuro mas, a vida quis que fosse agora, então vamos lá!

Quando o Pedro nasceu, foi colocado em meu colo imediatamente e uma das enfermeiras presentes na sala tentou estimular meu seio para que ele mamasse. Sem sucesso; não havia nada ainda.

Ele nasceu às 19:59h, chegamos ao quarto por volta das 23h e a enfermeira do plantão perguntou se eu gostaria de tentar amamentar e eu disse que sim. Eu havia desejado esse momento durante toda a gravidez. Ela me explicou como fazer, pegamos aquele toquinho de gente e fomos tentar. Descobri, naquela hora, o que era o tal “bico invertido”. Quando eu pressionava o seio para fazer a “prega”o bico entrava ao invés de sair.

Dizem que os bebês nascem com uma reserva de energia de até 72h, mas, quando tentamos colocar o Pedro no peito, parecia que ele estava faminto. Sugava, como se a vida dele dependesse daquilo. Doia, eu apertava o lábio e a enfermeira o tirava. Ela então me disse: amamentação não pode doer, se doer é porque está errada (doeu durante os 9 meses e meio).

Tentamos algumas vezes na madrugada, sem muito sucesso. Eu estava exausta do dia anterior e da cirurgia, inchada, sem beber água, sem comer.

No dia seguinte, meu peito estava cheio de colostro, e começamos as tentativas. Doia, eu tirava às vezes, em outras deixava e isso machucou muito meu seio. Fui ao banco de leite lá dentro do hospital, a enfermeira tentou ordenhar meu seio, saiu pouquíssimo leite mas, continuamos tentando… Ele mamava, machucava, eu chorava, ele também. Comecei a ficar preocupada, voltei ao banco de leite, desta vez, com o Pedro. A enfermeira que nos atendeu fez a ordenha, mas, com o Pedro mamando, foi um pouco melhor que o dia anterior.

Durante a tarde, o pediatra passou para avaliação. Ele tinha perdido peso dentro do esperado, no entanto, não estava urinando, o que significava que não estava recebendo a nutrição que precisava. Ficamos mais um dia no hospital, embora eu tivesse recebido alta.

Na última noite, meus seios estavam ingurgitados, muito doloridos. O Pedro berrava e a enfermeira da vez, uma senhora, trouxe a tão temida fórmula. Eu precisava que o Pedro se alimentasse e urinasse para irmos para casa. Eu precisava ir para casa, precisava do meu chuveiro e da minha cama.

O Rudney queria me ajudar, mas,

tinha medo que a sua falta de jeito, ou força exagerada atrapalhasse mais. No entanto, essa senhora, enfermeira do plantão, o que tinha de prestativa tinha de bruta. Em uma das tentativas de amamentar o Pedro ela massageou meu seio como se massageasse uma argila quase seca, além disso, ela pegou um travesseiro, e ao colocá-lo em meu colo com tanta força que bateu na cicatriz da cesárea e eu gritei. Ela se assustou e saiu. Rudney percebeu que podia me ajudar. Na manhã seguinte ele sentou-se na minha frente e ordenhou meus dois seios. Conseguimos tirar 50ml! Foi uma alegria sem tamanho. A pediatra passou para consulta. Eu tentava amamentar ainda que os seios  estivessem cheios de pontos roxos e doloridos por conta da pega errada, porém, Pedro estava urinando! Recebemos alta! Fomos para casa.

Ao chegar em casa, alívio e desespero ao mesmo tempo. Como iríamos nos virar sem aquela equipe toda? Nos viramos! A primeira noite foi horrível e os primeiros dias que se seguiram também.

Quando o Pedro completou 7 dias, fomos ao retorno com a pediatra e para o meu desespero, ele havia perdido peso em casa. Ela me disse para ficar tranquila, que aquilo era normal e que em breve estaríamos melhores, mas, me orientou que fosse ao banco de leite. Saí do consultório direto para lá e saí de lá como se tivesse sido atropelada por dois caminhões: um físico e um psicológico. Aos prantos, prometi ao entrar no carro: nunca mais coloco meus pés neste lugar!

Observação importante: essa foi minha experiência pessoal e particular com o banco de leite, lá é um lugar sensacional, que ajuda muita gente, se você precisa de ajuda, recomendo procurá-los, pois a sua experiência pode ser diferente!

Se eu seguisse a orientação que recebi, não faria mais nada da vida: eu tinha que oferecer o seio, ordenhar, oferecer o leite da ordenha e a fórmula. Por Deus!

No dia seguinte eu tinha retorno com o meu obstetra. Dr. Luiz Beltramim, um anjo que nos acompanhou na gestação e trouxe o Pedro ao mundo, nos iluminou mais uma vez e foi determinante para o sucesso da minha amamentação. Ele, pai de duas filhas, nos contou sua experiência com elas e me disse: “Esqueça tudo o que você ouviu até agora. Quando for a hora, ofereça o seu peito e depois a fórmula. Conforme ele for conseguindo mamar o seu leite, vai diminuindo sozinho a quantidade de fórmula. Do seu seio, se não sair leite, sairá carinho e é disso que ele precisa!

Fiz o que ele falou e dois dias depois estávamos em amamentação exclusiva!

Este começo foi complicado, meu seio rachou, enchia muito, com o ciclo de 3 horas do Pedro quase não dava tempo de ordenhar. Contratei a Bianca Lemos, consultora de amamentação, um amor de pessoa, que me ajudou muito!

Rapidamente passaram-se os primeiros três meses, tive dias muito ruins e dias melhores, mas, nessa época a tão temida lesão da psoríase apareceu no meu seio esquerdo. Começou pequena e hoje já está em toda a auréola.

Tentamos tratá-la com laser, sem sucesso. Ela aumentou e começou a ficar extremamente ressecada, o que ocasionou diversas fissuras. Sempre que fissurou, eu parava de oferecer o seio esquerdo, ordenhava para não ingurgitar e oferecia o direito, então ele começou a ficar extremamente sensível.

Eu sentia muita dor no mamilo após as mamadas e comentei com a Uyara, que me falou sobre a Síndrome de Reynolds (desconfio que tenha, mas não cheguei ao diagnóstico): o mamilo fica cianótico após as mamadas e muito sensível à baixas temperaturas. Eu naveguei por mares bravos, por aproximadamente três meses, até que chegamos a um ponto em que os dois seios racharam no mesmo dia e ver meu filho com  a boca cheia de sangue foi assustador (por mais que a pediatra me dissesse que aquilo não faria mal para ele). Decidi parar de vez de oferecer o seio esquerdo. Eu ordenharia e daria esse leite ao Pedro revezando com o peito direito. Deu certo… por alguns dias, mas, começou a sobrecarregar o seio direito e a abri-lo. Decidi que era hora de entrar com complemento.

Comprei a fórmula, fiz a primeira mamadeira e ofereci ao Pedro, recusou-se a tomá-la. O Rudney levou ele para a casa da avó, tentou oferecer lá, recusou-se novamente. Tentamos com o meu leite: ele mamou. Uma coisa sabíamos agora, a recusa não era pela mamadeira, era pelo leite. Decidi que iria misturar a fórmula ao meu leite e oferecer aos poucos para que ele fosse se acostumando. Em uma mamadeira de 220ml, comecei com 10ml de fórmula para 210ml do meu leite e fui aumentando a cada dia, até o dia em que ele bebeu a fórmula pura.

Fiquei feliz, pois aquela era a chance que eu tinha de aliviar o seio, para poder tratá-lo e voltar a amamentar. Durante o dia eu oferecia a mamadeira com fórmula. Quando eu ordenhava, oferecia o meu leite e na primeira e última mamada do dia eu oferecia o seio direito. Para mim, estava ótimo! Daria certo o tratamento e em breve conseguiria voltar ao normal.

A calmaria durou pouco mais de dois dias. O tempo mudou e eu tive uma urticária que atacou em cheio todas as lesões da psoríase: fiquei vermelha, inchada e com medo. Sozinha com o Pedro, não podia deixar que nada pior acontecesse. Precisei iniciar o tratamento com antialérgicos e corticóides, o que suspenderia a amamentação por hora… o leite ordenhado precisaria ser descartado e não poderia oferecer o seio direito.

Nesse dia, eu ainda tinha 110ml que havia ordenhado mais cedo. Dei ao Pedro e enquanto ele mamava, expliquei chorando, que a mamãe estava doente e teria que ficar um tempo sem amamentá-lo, mas que se eu me curasse logo, voltaria.

Embora nesses meses eu tenha tido pouquíssimas mamadas em que não sentisse alguma dor, era algo bom de fazer. Eu sempre curti aquele momento com o meu filho, o olhar dele enquanto mamava, o jeitinho de pedir o mamá, tudo isso fazia valer a pena.

Dois dias depois que iniciei o tratamento, a Uy me chamou para perguntar como eu estava, e se eu havia tomado alguma decisão sobre continuar ou parar, resolvi tirar uma foto do seio direito para enviar a ela e naquele momento percebi que eu não tinha escolha. A psoríase tinha atingido ele também. Como disse a Fabi, meu corpo estava gritando desesperado: “Cuida de mim!!”

Eu consegui amamentar o Pedro por nove meses e meio, ele cresceu super forte e saudável (teve apenas alguns episódios normais de viroses leves), mas, meu corpo sofreu demais para conseguir isto e precisa de cuidados. Eu sei que fiz minha parte, que fiz o melhor que pude e que fiz muito além do que poderia imaginar conseguir fazer. Não sei de onde veio forças para suportar as dores.

Ainda sofro, estou me sentindo anestesiada, não sei o que pensar, não sei como me sinto realmente. Mas sei que preciso cuidar de mim.

 O Pedro ainda pede o mamá da mesma maneira que pedia antes, mas agora, assim que eu pego a mamadeira, ele dá a mesma risadinha que dava ao me ver abaixando o sutiã. Ele já sabe segurar a mamadeira e mama sozinho se eu deixar, mas faço questão de pegá-lo no colo, na maioria das vezes, de passar os dedos pelos cabelos dele, como fazia enquanto ele mamava em mim.

O desmame ainda é uma ferida aberta, mas está sendo fechada com muito amor e dedicação.

 

Dani Prado

Mãe do Pedro, feliz por tê-lo nutrido por tanto tempo.

 

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