MATERNIDADE

“I’m not the black hole anymore” (Não sou mais o buraco negro)

5 de dezembro de 2018

“Buraco Negro é uma área situada no espaço em que o campo gravitacional é extremamente forte. Em função desta característica a luz não consegue refletir ou escapar do seu interior, por isso a região fica toda negra (sem luz)”. Prazer, esta era a Fabiana até ontem.

Eu já escrevi um texto aqui no blog afirmando que nunca quis ser mãe, aliás, se não me engano, este é, inclusive, o título do texto. Engraçado como quase 1 ano e 9 meses depois, as coisas mudaram tanto. Eu achei que tinha morrido para sempre, era difícil ver uma luz no final do túnel e quase sempre quando voltava para casa do trabalho, voltava chorando porque sabia que chegaria em casa e o trabalho continuaria sendo intenso, árduo e cansativo. Eu chorava e me sentia culpada por estar chorando; me sentia a pior pessoa do mundo.

Eu era o verdadeiro ‘buraco negro’; eu me questionava o tempo todo e queria saber para onde tinha ido toda aquela luz que eu sempre refleti; onde estava aquela Fabiana? Aquela que sorria o tempo todo, que conseguia fazer mil coisas, estar em mil lugares e, principalmente, onde estava a ‘Fabiana’: a alma, a essência, a voz? Onde ela tinha ido parar? Queria tanto que ela voltasse, sentia saudades dela e sentia que nunca, nunca, nunca mais eu a veria.

Por mais que eu a buscasse, ela não estava em lugar algum: eu olhava no espelho e minimamente reconhecia a imagem refletida. O campo gravitacional ao meu redor era extremamente forte e me impedia de sair da condição em que me encontrava, ao contrário, eu me afundava mais e mais a cada dia. Por vezes, carreguei meu esposo para dentro dele e quase o sufoquei em minha escuridão. Hoje, relatando tudo isto, é quase inevitável não pensar em como algo tão belo – gerar e trazer ao mundo uma vida – consegue ser tão destruidor, incapacitante, revoltante e incompreensível.

Voltar a trabalhar parecia ter me trazido, parcialmente, de volta à vida! Era como se o campo gravitacional perdesse sua força por algumas horas, mas, voltasse com força total no final do dia. Cheguei, por vezes, a me arrepender (sem pronunciar em voz alta para não atrair mais negatividade) de ter engravidado; pensava que se pudesse voltar atrás, não o teria feito. Olha quanto absurdo a gente pensa quando, na verdade, ‘não está pensando’!

Todos os dias pegava a Ana Clara e passeava com ela de carrinho próximo ao horário de dormir para que ela pegasse no sono. Chegava em casa e colocava ela no berço e só então ia dar conta da ‘minha vida’ (entre aspas porque envolvia mais dar conta de todo o resto do que de mim mesma). Certo dia, estava com ela na área térrea do prédio tentando fazer com que ela dormisse no colo e nada de ela dormir. Chorei! Chorei e pedi a Deus que me levasse embora; ela era pequena e não sentiria a minha falta! Ana Clara dormiu no mesmo instante. Hoje, novamente, relembrando este acontecimento, sinto vergonha de ter expressado tamanho absurdo.

Questionava incessantemente por onde andava a Fabiana que tinha ido embora para sempre…

Sei que nem todas as mulheres que lerem este texto me entenderão. Elas, provavelmente, me condenarão ou dirão coisas como ‘Pra que teve filho então?’ ou até mesmo ‘Não sabia que ser mãe era assim?’ Talvez a própria Ana Clara, se um dia, chegar a ler este texto, sentirá raiva de mim!? Orgulho? Piedade? Compaixão? Verdadeiramente, não sei o que acontecerá…

Porém, sei que hoje, volto para casa o mais rápido possível só para ter tempo de brincar com ela, olhar seu rostinho lindo, ouvir sua voz (que peço a Deus para ficar gravada em minha memória), dar banho de ‘escuma’ (espuma) como ela diz, colocá-la para tomar banho junto comigo e sentir sua mãozinha lavando meus pés, colocar o pijama e vê-la abrindo o frasco de colônia e vibrando após abrir a tampa porque já consegue fazer o movimento de rosca com os dedinhos, dizer que quer colocar um ‘cocs’ (crocks), me acompanhar até o meu banheiro para que eu termine de me trocar, passar creme na minha perna, me pedir um band-aid para colocar no ‘dodói’ imaginário que existe sobre a calça de pijama, pedir a ‘pepeta’ (chupeta) e o paninho, fingir um chorinho e pedir colo, ir comigo até a cozinha preparar o ‘tetê’, deitar no berço e dizer ‘tetê’, rolar de um lado para o outro e chamar ‘mamaiê’ com uma voz de quem passeia pelo parque, esperar que eu me debruce no berço e a encha de beijinhos enquanto ela acaricia meu cabelo, dormir e no meio da noite me chamar dizendo ‘mamãe vem aqui’ porque é hora do outro ‘tetê’, acordar pela manhã com um risinho lindo e imitar um jacaré quando eu digo ‘nossa, vamos escovar os dentes que tem um jacarézão aí nessa boca’, ficar de preguicinha no berço enquanto eu coloco o uniforme da escola e dizer ‘migau não’ (mingau não) quando eu pergunto se quer mingau, vê-la carregar a mochila até o carro, colocá-la em sua cadeirinha, perguntar se quer panqueca de banana, ouvi-la pedindo pela minha mão e explicar que a mamãe está dirigindo e não pode segurar a mão dela, vê-la dizer ‘camião’ e corrigi-la dizendo ‘ônibus filha’ e ela repetir, pegá-la no colo e ouvir ela dizer que quer ir no chão levando sua mochila, observar seus passinhos e acompanhá-los sem apressá-la, pedir para Deus manter vivo aquele momento em minha memória, pensar que preciso acompanhá-la, observar a pombinha quando ela diz ‘olha, pombinha’ ou a ‘pixina’ (piscina), acompanhar sua entrada na sala e esperar para recomeçar tudo de novo quando for buscá-la novamente…

Hoje, finalmente, posso dizer que encontrei a Fabiana. Olhei bem ela nos olhos e perguntei por onde andava. Ela, sem jeito, me pediu desculpas, disse que não sabia quem tinha se tornado, disse que não conseguiu, por um tempo ser luz… Disse ainda, envergonhada, que muitas vezes, rezava para nunca mais sair da escuridão e se apagar mais a cada dia; disse que, inconscientemente, se desviava da felicidade cada dia que ela tentava cruzar seu caminho…

Enfim, conversamos, choramos, nos desculpamos e resolvemos que não mais nos separaríamos. Ledo engano, ela se foi novamente… Naquele exato instante, uma infinidade de luz me inundou e eu posso dizer que, finalmente, estou de volta. Garanto que a essência da Fabiana anterior permanece em mim mas, aquela Fabiana de antes morreu e hoje renasce a nova Fabiana.

“Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer”

Marguerite Yourcenar

Eu morri… para renascer. Hoje eu sei!

 

Fabiana Paganini de Andrade, 36 anos, hoje, definitivamente, mãe da BBUrsa.

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1 Comment

  • Reply
    Fernanda Fischer
    6 de dezembro de 2018 at 06:31

    Fabi, que texto mais lindo! Vivi tanto tudo isso… E saber que outras também vivenciaram o mesmo desespero, faz com que me perdoe um pouquinho mais. Sempre falo que maternidade para mim é morte para viver. Não são muitos que me entendem. Eu, por muito tempo, agarrei-me na moça que eu era, tinha medo de sumir. Esse foi meu erro. No momento que entendi que ela morrera, iniciei a busca pela vida. Eu também saí de meu buraco negro. Foi um ensinamento dificílimo, mas essencial para me transformar em uma pessoa mais bonita! Amei ler você!

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