AMAMENTAÇĀO BEBÊ MATERNIDADE PUERPÉRIO REDE DE APOIO

PU – ER – PÉ – RIO  – A travessia de um caminho sem volta

30 de maio de 2018

Meu nome é Uyara, sou mãe, enfermeira obstetra e consultora em amamentação.

Quando falo sobre puerpério com uma nova mãe, ela logo me lança um olhar e me pergunta: “Mas, você tem filhos?!” E eu respondo: “Sim. Eu tenho gêmeos.” Essa resposta muda todo o contexto e percebo nitidamente que ela fica, quase que de imediato, aliviada com a condição em que ela se encontra. Em seguida, vem outro comentário: “Nossa, não me imagino com dois bebês, já estou sofrendo bastante, imagina dobrado.”

Por muito tempo eu ouvia esses comentários e não parava para pensar no quanto aquele momento pra ela estava sendo conturbado. Eu pensava: “Eu dava conta com dois”, mas, eu não vi o tempo passar, eu não tinha tempo pra sofrer. Eu não sei quantificar em tempo, o quanto eu fiquei ligada no automático tentando dar conta de tudo. Eu era uma máquina. Amamentava os dois, exclusivamente com meu leite. Eu tinha dois bebês ‘bezerros’ que não largavam meu peito. Era muito cansativo.

Lembro de um dia, sentada na poltrona em alta madrugada, meus braços fraquejarem e eu quase derrubar o Miguel. Acordei aflita e ele estava lá mamando, e claro, assustou e começou a chorar. Em seguida, acordou a irmã e eu sozinha comecei a chorar junto. Consegui acalmá-lo, me acalmei e ele adormeceu, peguei a Júlia, depois de muito choro, e coloquei no peito, esquecendo-me  completamente que já havia amamentado ela anteriormente. Ela por sua vez, com o estômago cheio, afogou no peito e logo vomitou. Sinceramente eu quase enlouqueci, mas não tinha pra onde correr, tratei de desafogá-la e limpar a sujeira. Mais uma noite…

O puerpério é o lado escuro da maternidade, ele pode ser luz, pode ser mais leve, mas, pra que facilitar a vida da mãe né?! Somos bombardeadas de opiniões e comentários que não nos acrescenta em nada. O puerpério dói, e essa dor não é aquela da cirurgia ou do peito que empedrou, é uma dor emocional, uma dor psíquica que vem com força total e que nos arranca lágrimas durante as madrugadas.

A dor do puerpério vai muito além das cólicas abdominais, do inchaço das pernas, da privação de sono e do cansaço físico, ela revira nosso emocional como se fosse possível colocar todos nossos sentimentos dentro de um liquidificador e ficar apertando o ‘pulse’. Não, eu não quero dizer que após o nascimento não haja momento de felicidade e ternura com nosso bebê, não é isso. Apenas quero deixar claro que a imagem que a internet, que a novela das oito e que alguns livros nos trazem, é falsa. Dói muito deixar de ser filha, pra se tornar mãe.

Então, nesse período turbulento de privação de sono (que pra mim era a pior parte), resolvi abrir mão de todas as evidências científicas que trazia comigo, resolvi me render àquela que eu sempre critiquei, a chupeta. Eu não estava dando conta de tanta disponibilidade, eu não sabia o que era ser mãe, definitivamente. Passei por cima de todos os meus discursos de consultora de amamentação, pra viver a realidade de uma vida de mãe recém-parida. Confesso que a amamentação já estava estabelecida e resolvi jogar na ‘loteria’, era assim ou iria desistir.

Nesse período de uso da chupeta, ganhei na loteria e não tive problemas com a amamentação, mas tive sorte. Não proclamo o uso da chupeta, e também não deixo de expressar meu conhecimento para aquelas que tomam essa decisão. Mas, se tratando de puerpério, o melhor a fazer é orientar e apoiar, a decisão quem toma é a mãe. A melhor e maior recompensa dessa jornada incessante, é olhar depois de alguns anos e ver o quanto a sua abdicação valeu a pena. Sim, eu os trouxe também para a minha cama por um curto período, quando cresceram um pouquinho essa situação já não era sustentável e o berço deles era o único local pra repouso.

Não quero amedrontar nenhuma mulher com este texto, tampouco convencê-la de que tudo serão flores. Quero a estimular a pensar que não está sozinha, que uma rede de apoio pode e fará diferença nessa passagem. Esse período é forte, é intenso e marcante em nossas vidas, o melhor de tudo é dizer a frase que soa como clichê:  “Tudo isso passa”!

Uyara Januzzi, 34 anos, mãe da Júlia e do Miguel, enfermeira obstetra que ama os filhos mais que tudo nesse mundo.

2 Comments

  • Reply
    Patricia
    31 de maio de 2018 at 14:55

    Sim tudo passa…..E depois nem nos damos conta de quão sofrido fOi. …Mas passa posso garantir…Sou mãe de dois casais num curto espaço de tempo….

  • Reply
    Uyara
    9 de junho de 2018 at 18:17

    Sim Patrícia! As vezes forço a memória pra relembrar alguns assuntos. Agradeço a Deus todos os dias por me deixar viver esses momentos. 🙂

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