AMAMENTAÇĀO BEBÊ DOR MAMÃES REAIS MATERNIDADE

Quando a dor é na alma

21 de maio de 2018

(Relato de uma mãe que queria muito amamentar mas que foi desencorajada pela dor… na alma)

 

Todas nós planejamos o parto normal, a amamentação sem dificuldades e um bebê lindo e comportado, não é mesmo? Ahhh eu tenho certeza que em algum momento na sua trajetória você desejou exatamente isto; não só desejou como estava crente que seria assim.

Bem, eu não. Eu não queria o parto normal e, ao longo do processo, mudei de ideia e desejava tão fervorosamente que parecia mais uma meta a ser alcançada; como aquelas que buscamos no ambiente coorporativo. A priori eu não queria amamentar; eis que se tornou primordial amamentar, mas, até quando? ‘Ahhh até quando minha licença acabar… oooppsss… esperaaaaaa! Eu posso ordenhar e levar para o berçário’. Pronto! Eu tinha sucumbido aos prazeres e dores da maternidade.

E eu estava feliz com isso. Muito! Muito feliz mesmo! Eu estava inclusive feliz porque meus seios estavam enormes e eu me achava a verdadeira “Vênus de Milo”. Ok! A Vênus de Milo grávida, no caso.

O tempo foi passando e eu fui percebendo que, bem, não aconteceria como eu tinha planejado e sim como a Ana Clara tinha planejado ou até, talvez, como o meu corpo tinha planejado receber a Ana Clara.

Não sabia mas tinha um cisto alojado no ovário esquerdo. Não sabia, ninguém sabia e nem os médicos souberam me dizer quando às 24 semanas de gravidez tive um sangramento que, de tão intenso, levou a médica plantonista a preparar a sala de cirurgia para uma cesárea de emergência. Meu primeiro pensamento foi: ‘Minha bebezinha vai morrer! Como um bebezinho vive com 24 semanas apenas? E todo o desenvolvimento cognitivo?’

Minha cabeça girava e eu só pensava que isto não podia acontecer. Pedia a Deus que intercedesse por ela e não deixasse que ela chegasse naquele momento e então, Ele me ouviu. Acredito que, na verdade, fui eu quem aprendi a ouvi-Lo. Ana Clara esperou mas, ainda assim veio de cesárea seguida de uma cefaleia pós raqui.

Até aqui parte do meu sonho já tinha se desmoronado. Mas espera: minha bebezinha estava ali e isso era o que importava. Apesar de prematura de 36 semanas e 5 dias, ‘BBUrsa’ – como fico conhecida depois de ser assim apelidada pela prima que assistia ao desenho de uma ursinha que tinha acabado de ter um bebê – se mostrava guerreira e sugava o peito a todo custo.

As enfermeiras foram extremamente solícitas e me ajudavam o tempo todo com o colostro e a massagem para a descida do leite.

Ana Clara nasceu na madrugada de quinta para sexta e saímos do hospital somente no sábado. Meu leite ainda não tinha descido e, quando desceu, no domingo, eu tive a impressão que o leite de todas as mães que tinham tido bebê no hospital, tinha descido nos meus seios. Que dor insuportável! Os meus seios empedraram no minuto em que o domingo raiou.

Tive febre nos seios e na segunda, pela manhã, já liguei no banco de leite solicitando atendimento. Lembro-me até hoje que a atendente pediu para que eu fosse ao meio dia daquele dia. Cheguei lá, crente diante dos inúmeros relatos bem-sucedidos, que sairia não só amamentando como também doando leite. Ana Clara teve que ir comigo pois este era o procedimento.

Lembro-me de sentar em uma cadeira e ouvir a seguinte pergunta: ‘Nossa mãe, mas por que deixou chegar neste estágio?’. Minha vontade foi soltar uma voadora na cara da enfermeira, mas, me contive. Educadamente expliquei que tinha saído do hospital no sábado e que ainda não tinha dado tempo de ir até lá. Afinal, era domingo no dia anterior.

Eis que começa a tortura. Juro! T – O – R – T – U – R – A! Deram-me uma toalha para que eu enxugasse minhas lágrimas. Duas auxiliares amassavam meus seios como se sovassem um pão. Apertavam, apertavam, colocavam ordenha elétrica, manual e insistiam no aperto. Enquanto isso eu ouvia Ana Clara chorando em um daqueles berços hospitalares e eu tentava me convencer de que estava ali por ela, de que valia a pena aquela dor e de que tudo passaria.

Depois de 1 hora de sofrimento: 20ml de leite. Ana Clara mamou como se não houvesse amanhã e ficou tão quietinha e dormiu. Foi então que eu chorei mais ainda. Como teria coragem de deixá-la sem aquele alimento que tanto bem tinha feito para ela? Eu  não conseguia parar de chorar. Meu marido assustou ao me ver e perguntou o que tinha acontecido. Eu só conseguia repetir ‘Vamos embora daqui!’.

Saímos de lá e eu não conseguia parar de chorar. Minhas lagrimas escorriam sem que eu fizesse qualquer esforço. Naquele momento tive certeza que não era eu quem chorava, era minha alma. Meu choro vinha de um desespero imensurável. Olhei para o lado e vi Ana Clara dormindo placidamente depois de ter se alimentado com 20ml do meu leite. A  culpa já me apunhalava pelas costas: fria, indiferente e repetindo ‘fraca, fraca, você é fraca!’. No final daquele mesmo dia ainda fui ao plantão do Sinhá e o procedimento foi o mesmo: apertar, apertar, apertar, ordenha elétrica, manual e a recomendação de que eu fizesse o mesmo procedimento em casa. Novamente o choro da alma se sufocou. Fui para casa, desolada e derrotada.

Eu não consegui. Eu desisti. Liguei para minha médica. Pedi socorro. Ela me examinou. Disse que estava com princípio de mastite. Era melhor não amamentar. Acabou ali meu sonho. Acabou ali minha esperança. E a alma se calou. Para sempre.

Fabiana Paganini de Andrade, 35 anos, mãe da Ana Clara (BBUrsa) de 1 ano e 2 meses, professora apaixonada por ensino-aprendizagem.

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4 Comments

  • Reply
    Fernanda Fischer
    21 de maio de 2018 at 22:14

    Noooossa! Chorei, mulher! Que relato! Parece que um filme passou por minha cabeça, Fabi! Quanto sofrimento, quantos sonhos abortados. A gente tem a doce ilusão de que tudo na maternidade é natural, né. Mas antes de sermos mães, porque depois logo vemos que, na verdade, é um caminho a ser criado por nós e nossos filhos.

    • Reply
      Fabiana Paganini de Andrade
      21 de junho de 2018 at 17:33

      Ferfer, muita dor né? Parece que só tem calvário neste caminho, né? Parece que o sofrimento vai durar para sempre! Mas, a gente se recupera. Quero notícias da Dorinha <3

  • Reply
    Juliana
    27 de maio de 2018 at 08:19

    Minha amiga sinto muito…. mas sei a mãe supinpa que vc é e com certeza a melhor mãe ora Ana Clara e ela é uma criança linda e feliz. Meu desejo de parto normal tb foi interrompido devido muita dor na hemorróida inflamada e cm bastante sangramento. Eu não aguentava mais aquela dor e decidimos fazer cesarea com 40 semanas. Beijos no seu coração.

    • Reply
      Fabiana Paganini de Andrade
      21 de junho de 2018 at 17:32

      Aiiii Ju, que dor! Mas que doeu e, tem dias que ainda dói, é verdade… Sinto por nós, acredite!

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