MATERNIDADE

Sobre a Graça de Deus

21 de janeiro de 2019

Quando eu nasci, em 1984, meus pais tinham despachante e um restaurante anexo. O negócio deles ficava ao lado do Detran em Belo Horizonte. Era uma mina de dinheiro. Praia todo ano, jantar fora 3 vezes por semana, babá e empregada. No início dos anos 90, o Detran decidiu internalizar os processos e não era mais necessário um intermediário para emplacamentos e outros trâmites. Meus pais faliram, pela primeira vez.

Aos 9 anos, fui morar numa casa que meu pai tinha comprado para reformar em um bairro bem pobre, onde corria esgoto a céu aberto. A casa nunca foi reformada. Aos 11 anos, mudamos novamente. Meu pai tinha arrendado uma quadra poliesportiva em um bairro melhor e havia um sobrado anexo que não estava sendo usado. Mudamos sem piso mesmo.

Sair de onde estávamos era bom demais. De quadra o negócio virou um restaurante, lindo, grande, cheio. Fartura novamente. Aos 12 anos, começamos a trabalhar com ele lá. Dos 13 aos 16 anos, a vida financeira foi uma beleza. Várias ampliações no restaurante, reforma no sobrado onde morávamos e meu pai faliu de novo. A essa altura o alcoolismo dele já tinha piorado muito. A nossa “ajuda” no restaurante não era mais opcional.

Entrando no ensino médio eu fiz uma prova para uma bolsa parcial em um colégio particular, passei, mas não dava pra pagar a passagem e a mensalidade. A opção era permanecer na escola pública. Os livros didáticos eram conseguidos por uma tia que trabalhava em uma editora. Estudar sempre foi um refúgio pra mim. As boas notas me deixavam em uma posição de privilégios em casa.

No terceiro ano eu comecei um cursinho a tarde, um desses sociais. No primeiro ano não deu. Continuei no cursinho de novo em 2003. Arranjei uma dupla de estudos que queria passar em medicina. Colei nela! Passamos!

Na faculdade pública eu não tinha dinheiro pros jalecos bordados e usava uma camisa branca comprada no extra.

Esse texto não é sobre a triste história de uma menina pobre que venceu na vida. Esse texto não é pra te comover e te fazer me parabenizar pelo que consegui. Esse texto é sobre a Graça de Deus. Pois foi ela que invadiu a minha vida em 2006 e mudou tudo.

Ela que já me fez pedir sutiã em oração crendo que receberia (e recebi). Ela que me trouxe ao lugar plano (nem rica, nem livre de problemas, mas contente em Deus) que vivo hoje.

Deixa eu te explicar o que é Graça: é um favor imerecido. Algo que você jamais poderia conquistar com suas próprias forças e empenho. Graça é o que vem do alto, o pão que cai do céu.

A bondade de Deus mudou a minha história. Eu vi Jesus (não foi num pé de goiabeira, mas poderia ter sido) e fui profundamente impactada por Ele.

A Graça me fez perdoar meu pai alcoólatra (hoje sóbrio há mais de dez anos), enxergar a oportunidade na universidade com outros olhos, conseguir uma iniciação científica com uma das melhores professoras, me formar, conseguir um emprego no maior hospital do estado e seguir carreira. A Graça coloca alimento na minha despensa e alegria para lavar a louça após o almoço. Entenda que foi a Graça. Não sou eu, não é meu esforço, não são os meus títulos e qualificações.

O entendimento do que é a Graça de Deus é o que eu mais quero passar para a Raquel. Se ela entender que a comida está sobre a mesa por Graça, que ela se veste pela Graça, que estuda, viaja, passeia… enfim, que se não fosse a Graça de Deus nada disso estaria disponível, ela vai descobrir a chave para uma vida plena e feliz, em qualquer circunstância.

 

Carla, mãe da Raquel, que todo dia aprende um pouquinho mais sobre a graça de Deus.

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