CRIAÇÃO MATERNIDADE

Valores que não tenho

17 de dezembro de 2018

Quase todos os dias reflito sobre os valores que gostaria de poder passar para Ana Clara. Quero que ela, assim como eu que, apesar de não ter sido criada exatamente dentro da ‘disciplina positiva’ (muito pelo contrário, a disciplina mais ‘positiva’ que eu aprendi foi Matemática com minha irmã porque, de resto, o chinelo e a cinta cantavam alto por lá!), gostaria que ela valorizasse o trabalho dedicado para se alcançar algo, o esforço sem medidas para ser cada vez melhor naquilo que se propôs a fazer, o alimento que ela consome que custou muito dinheiro para estar ali, a roupa e o calçado que ela usa que não caíram do céu e, por aí vai…

Mas, uma coisa é você ouvir do seu pai que passou fome, que não tinha o que comer, que não tinha TV, que acordava às 4h da manhã para ir para o Tiro de Guerra, que seguia para o trabalho na sequência e que depois estudava à noite e outra é não poder usar nem meia palavra deste discurso com sua filha. Celular? Internet? Grupo de Whatsapp? Imagina! Nada disso existia!

Posso chegar para a Ana Clara e dizer: “Filha, come tudo porque você não sabe o que é passar fome!”. Posso? Claro que não! (Bom, no meu caso não) Ou posso, por exemplo, privá-la de comer algo porque vai que, um dia, na vida, ela passe fome então, melhor aprender desde cedo que não vai ter carne todo dia? Como assim? Acho que quando ela crescer e entender a dinâmica do processo, ela vai virar e dizer: “Sério mesmo que vocês me deixavam passando vontade porque ‘vai que um dia’ falta e eu não poderei comer?”

Já ouvi mães dizerem que querem colocar seus filhos na escola pública porque ela ou o marido (leia-se ‘os pontos fora da curva’) estudaram em escola pública, superaram todas as adversidades e hoje são quem são porque se esforçaram e bla bla bla. Gente, me desculpem, mas, o ensino público, hoje em dia, não tem nada de bom a oferecer. Quiçá em Santa Catarina, no sul, talvez ainda salve uma escola ou outra, mas, na grande São Paulo e redondeza, estamos todos, invariavelmente, perdidos.

Claro que, se você não tem condições de pagar por uma escola de qualidade, está mais do que certo em colocá-lo em uma escola, qualquer que seja ela. Porém, o que não consigo entender, são pessoas que podem pagar por um ensino de qualidade, quererem sacrificar o filho porque ‘eles’, um dia, venceram na vida. E, diga-se de passagem, só venceram por conta do respaldo familiar; porque a grande maioria dos que dependem do ensino público mal tem o que comer, vão para a escola por causa da merenda e, geralmente, vêm de uma família desestruturada e sem quaisquer privilégios.

Imagina lá na frente seu filho te perguntando: “Sério mesmo que vocês podiam ter me colocado em uma escola de qualidade, tinham condições de pagar mas preferiram me colocar na pública?” É o mesmo que mandá-lo para escola sem casaco em um dia frio para que ele aprenda a dar valor nas roupas que tem ou, quem sabe, dizer que vai passar uma semana dormindo no chão para saber como é difícil não ter uma cama para dormir. Ok! Pode ser que este tipo de ‘tortura moderna’ funcione de alguma forma, mas, ainda acho que o crime não compensa. Imaginem o gasto com psicólogo depois para consertar o trauma que tudo isso causará  na criança/adolescente/adulto?

Sei que muitos dos valores que carrego hoje foram incutidos de modo um tanto quanto autoritários, ‘ditatoriais’ talvez, mas, surtiram o efeito desejado e hoje valorizo cada grão de arroz do meu prato, acho o cúmulo jogar comida fora, sei que dinheiro não dá em árvore e bla bla bla; mas, privar meu filho do que posso oferecer para ele, tendo condições de fazê-lo, me parece um tanto quanto mesquinho. Repito aqui que esta é uma opinião extremamente pessoal e que, caso você não pense da mesma forma, está tudo bem.

Não poderei dizer para a Ana Clara: “Coma porque você não sabe o que é passar fome” porque bem, nem eu sei; não poderei dizer: “Na minha época eu ia para escola a pé” porque bem, quando eu ia a pé, eu amavaaaaa! Minha mãe nunca deixava irmos a pé, então, quando isto acontecia, era quase um evento! Nunca poderei dizer: “Quando eu era pequena, não tinha TV em casa” porque bem, tinha (ainda que preto e branca, mas, para ser sincera, eu só lembro dela colorida); e o celular? Ai Gezzzzzuuuiiiiissss na Cruuiizzz! O mundo é digital! Como fazer com que ela não se interesse por ele se ela o vê na minha mãe quase sempre? Aliás, este blog só existe por conta de um grupo de Whatsapp.

Olha amigos, voltar para as cavernas não será possível (confesso que, por vezes, gostaria muito hahahahaha), sendo assim, cabe a nós acharmos meios de agregar valores às comodidades que hoje fazem parte das nossas vidas (repito: não da vida de todos). Acredito que uma saída ainda seja o respeito e a empatia, mostrando o caminho percorrido para se chegar até onde chegou e os sacrifícios que foram feitos em nome do bem estar e da qualidade de vida que hoje lhes são proporcionados. E muita sorte, reza e amor nesta empreitada. Ninguém melhor do que Albert Camus, escritor e filósofo Argelino, para sintetizar verdadeiramente o que tentei escrever:

“Nada é mais desprezível que o respeito baseado no medo”

 

Fabiana Paganini de Andrade, 36 anos, mãe da BBUrsa e, definitivamente empenhada em agregar valores e não ‘dinheiros’ à vida de sua filha.

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